Qual foi a última vez que você olhou para o pôr do sol e pensou: "Aquele laranja ali no canto está meio estranho" ou "Se eu me esforçar bastante, consigo fazer o sol voltar a subir"?
Nunca? Bem, nem eu.
Quando o sol vai embora para descansar, eu apenas assisto. Assisto curioso enquanto a luz muda, do rosa que vira roxo, do roxo que vira escuro. Nada para corrigir, nada para evitar, nada para resolver. É um evento, afinal de contas, não uma tarefa.
Mas quando olhamos para dentro, magicamente nos tornamos engenheiros. Assim como resolvemos uma equação matemática, ou um problema lógico, tentamos aplicar os mesmos mecanismos à nossa vida interna. A tristeza se torna uma peça solta. A angústia, pensamos, deve ser falta de óleo.
Tratamos nossa vida como um problema a ser resolvido, como se apertar algumas peças aqui, e desemperrar outras engrenagens ali, deixaria tudo em seu devido lugar, agindo como se a nossa história fosse um erro de fábrica.
Ligue a TV ou abra o Instagram e o discurso é o mesmo: existe uma pílula mágica para cada desconforto. Com certeza você já ouviu os nomes da moda:Rivotril, zolpidem, venvanse, ritalina, lexapro e muitos outros. "A cura para os problemas", eles vendem a ideia, "dez comprimidos, dez vezes ao dia, e o sofrimento vai embora".
E não me entenda mal. Medicação tem seu lugar. Para quem precisa, ela pode ser a diferença entre conseguir levantar da cama ou não. Entre dormir ou passar mais uma noite em claro. Entre ter energia para viver ou apenas sobreviver no automático.
Mas existe uma diferença entre usar medicação como ferramenta e usá-la como solução. Entre tratar um desequilíbrio químico real e tentar calar o que a vida está tentando dizer.
O problema não é sentir tristeza, angústia ou medo. O problema é achar que esses sentimentos são defeitos.
Vivemos numa cultura que vende a ideia de que você precisa estar sempre bem. Sempre produtivo. Sempre feliz. Sempre no controle. E quando você não está, a solução é rápida: conserte isso. Tome algo. Medite. Respire fundo. Qualquer coisa, desde que volte ao "normal" o mais rápido possível.
Mas e se o normal incluir, às vezes, não estar bem?
E se a tristeza que você sente não for um erro, mas uma resposta legítima a uma vida que não está alinhada com o que importa para você? E se a angústia for o aviso de que você está vivendo no piloto automático, fazendo o que te disseram para fazer, mas ignorando o que realmente quer?
Talvez seja dificil ouvir isso, mas a verdade é que nem toda dor precisa ser eliminada. Algumas precisam ser ouvidas.
Quando você sente medo antes de uma decisão importante, esse medo pode estar te dizendo algo. Quando você sente raiva de alguém que te desrespeitou, essa raiva tem função. Quando você sente tristeza por ter perdido algo valioso, essa tristeza faz parte do luto.
Não é sobre romantizar a dor, nunca foi. Não estou dizendo que você deve "aguentar firme" ou que "dor constrói caráter". Estou dizendo que existe diferença entre sofrer porque algo está errado na sua vida e sofrer porque algo está errado no seu cérebro.
O que acontece quando você trata cada emoção desconfortável como inimiga? Você entra em guerra. E numa guerra interna, não existe vitória, só desgaste.
Você acorda ansioso e pensa: "Não posso estar ansioso hoje, tenho reunião". Aí tenta controlar a ansiedade. Respira fundo, repete afirmações positivas, tenta se distrair. E quanto mais você luta contra ela, mais ela cresce. Porque agora você não está só ansioso com a reunião. Está ansioso por estar ansioso.
Você sente tristeza e julga: "Por que estou assim? Minha vida não é tão ruim. Tem gente passando por coisa pior". E aí vem a culpa. Agora você está triste e se sentindo culpado por estar triste. A dor original vira uma bola de neve.
Esse ciclo tem nome: esquiva experiencial. Você tenta evitar, suprimir ou controlar suas emoções, e no processo, elas ganham ainda mais força. Você gasta mais energia fugindo da dor do que lidando com o que a causou.
Tente não pensar num elefante rosa. Sério, não pense. Proibido.
Pensou, né?
É exatamente isso que acontece com as emoções. Quanto mais você tenta não sentir algo, mais aquilo ocupa espaço na sua mente. Quanto mais você evita a ansiedade, mais ela te persegue. Quanto mais você suprime a raiva, mais ela vaza em lugares errados.
O controle funciona para coisas externas. Você pode controlar se vai sair de casa ou não, se vai responder aquela mensagem, se vai aceitar aquele convite. Mas não pode controlar se vai sentir ansiedade ao sair, se vai sentir culpa ao não responder, se vai sentir medo de aceitar.
E quando você tenta controlar o incontrolável, perde energia que poderia estar usando para mudar o que realmente importa: suas ações.
O que você faz quando não pode mudar o que sente?
Você observa, nota, e age mesmo assim. Você pode sentir tristeza e continuar vivendo. Pode sentir raiva e escolher como responder a ela.
Não é sobre eliminar as emoções. É sobre aprender a carregá-las enquanto você se move na direção do que importa para você.
Se você quer construir relacionamentos mais profundos mas tem medo de rejeição, a solução não é esperar o medo passar. É aprender a se expor mesmo com o medo presente. É descobrir que você pode tremer e ainda assim dizer o que precisa ser dito.
Se você quer mudar de carreira mas sente insegurança, a solução não é esperar a confiança chegar. É dar pequenos passos mesmo inseguro. É descobrir que coragem não é ausência de medo, é ação junto dele.
Você pode passar a vida inteira tentando se sentir melhor. Ou pode começar a viver melhor, mesmo quando não se sente bem.
Essa é a mudança que muda tudo. Não é sobre eliminar a dor. É sobre parar de colocar sua vida em pausa até que a dor vá embora.
Porque ela pode não ir. E aí, o que você faz? Continua esperando? Continua evitando? Continua apertando o botão de pausa enquanto os dias passam?
Ou você aprende a se mover com a dor, a viver junto dela, a descobrir que é possível construir uma vida significativa mesmo carregando peso?
Então se pergunte, e se você pudesse olhar para a sua dor hoje com os mesmos olhos que olha para o entardecer?
Não precisa gostar dela. Você não precisa aplaudir a noite que chega. Mas você precisa reconhecer que brigar com o sol não faz ele parar de descer. Só te deixa exausto no escuro.
Baixe as armas. Deixe o sol se pôr. Deixe o sentimento passar.
Você não é o céu. Você é quem assiste.